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O Pastor do Salmo 23

O pastor e as ovelhas.

Introdução
Um dos textos mais recitados, amados e conhecidos não só no mundo judaico-cristão, mas também por aqueles que não são convertidos, é o Salmo 23. Provavelmente o Salmo mais aclamado de todos. E é sobre ele que mergulharemos a partir de agora.

• Salmos é um conjunto de cinco livros.
     Primeiro Livro, 1 ao 41.
     Segundo Livro, 42 ao 72.
     Terceiro Livro, 73 ao 89.
     Quarto Livro, 90 ao 106.
     Quinto Livro, 107 ao 150.
• Dos 150, 73 salmos são atribuídos a Davi.
• Ele, o Salmo 23, é tido como o Salmo da confiança.
• Ele, o livro dos Salmos, é direcionado para todas as pessoas, tanto no sentido pessoal quanto coletivo.
• Salmos, juntamente com Isaías, é um dos livros que mais fala a respeito da criação (cf. Salmos 77.11-15; 78,3,4; 103.7; 136.1-26).
• Ele, o Salmo 23, faz parte de uma trilogia messiânica.
     Salmos 22, 23 e 24.
     22, o Bom Pastor (cf. João 10.14).
     23, o Grande Pastor (cf. Hebreus 13.20).
     24, o Supremo Pastor (cf. 1Pedro 5.4).
• O Salmo 23 está divido em duas partes.
     Do 1 ao 4, pastor e ovelha.
     Do 5 ao 6, anfitrião e convidado.

Problemática
Assim como Filipenses 4.13, o Salmo 23 muitas vezes é usado e interpretado de forma incorreta. Por mais que seja um riquíssimo texto com belas e profundas palavras, muitos ainda ignoram a boa interpretação e a aplicação desse Salmo.
Por exemplo:
1) O "nada me faltará" não se refere apenas à provisão de Deus, mas a Ele mesmo, não é apenas das bênçãos visíveis, mas das invisíveis também.
2) O "preparas-me uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos" não é sobre uma vingança ou reviravolta humana (como vemos em muitas músicas gospel, por exemplo, "Sabor de Mel"), mas é sobre a garantia de conforto e segurança que o anfitrião concede ao convidado.
3) E o "unges a minha cabeça com óleo" não tem a ver com "unção" ou "poder espiritual", como muitos pensam, mas se trata de uma atitude de honra na qual o anfitrião dá ao seu visitante.
O mais incrível é que já vi pessoas usarem este Salmo como uma oração para atrair prosperidade, o que não faz sentido algum.

Identificando o Livro
CONTEÚDO LINGUÍSTICO
• Na Bíblia existe um grupo de livros, os quais são considerados poéticos. Os livros são: Jó, Salmos, Provérbios, Cânticos dos Cânticos e Eclesiastes.
• Portanto, Salmos é um livro de gênero poético.
Nos livros contêm várias questões como: louvores, cânticos, orações, queixas, questionários, angústias, livramentos e passagens messiânicas.
• Por que é importante saber sobre o gênero literário? Para uma melhor e mais correta compreensão e interpretação do texto.

Expondo o Contexto

HISTÓRICO E CULTURAL
• A primeira menção na Bíblia que temos a respeito de um pastor é em Gênesis 4.2, Abel.
• Ser pastor era uma área nobre para uma pessoa, mas não era algo romântico. Havia muitas adversidades e dificuldades para essa área de atuação.
• As ovelhas eram importantes no âmbito econômico, religioso e agrícola. Eram bastante cultivadas, por exemplo: 1Reis 8.5,63.
• Os homens mais importantes na história da comunidade judaica foram pastores de ovelhas, por exemplo: Abraão, Isaque, Jacó, Moisés, Davi... e agora Jesus, o Cristo, o nosso bom pastor.

O PASTOR E AS OVELHAS
     1. O Pastor
• Ele monta um aprisco para elas.
• O aprisco era para protegê-las do clima, animais selvagens e ladrões.
     No inverno, havia um pastor que cuidava de todas as ovelhas de vários outros pastores num grande aprisco. Nessa ocasião, pelo fato de ter muitas, poderia aparecer alguns ladrões para saquear as ovelhas.
     No verão, era contratado um mercenário para cuidar delas, num aprisco menor, nessa ocasião havia a possibilidade de aparecer alguns animais selvagens, e nesse caso o mercenário podia até não dar muita importância para as ovelhas, além do mais era apenas um contrato de serviço, ele não tinha nenhum apego com elas (cf. Jo 10).
• Ele as conduz até seu alimento.
• Ele sempre está atento a elas.
• Ele as protege, dá a sua vida por elas.
• Ele possui uma vara e um cajado.
     Vara, para espantar os predadores e caso a ovelha saia do caminho ele bate nela, como forma de disciplina, para ela voltar ao caminho.
     Cajado, para proteger ou resgatá-las caso elas caiam ou se entrelacem em alguns arbustos de espinhos ou despenhadeiros.
• Ele sempre estar por perto, presente.
• Ele sempre vai adiante das suas ovelhas.
     O pastor difere de um boiadeiro.
     O boiadeiro sempre conduz o rebanho indo atrás, o pastor conduz seu rebanho indo à frente.

     2. As Ovelhas
• Não sabem se defender, não lutam, não mordem, dificilmente esboçam alguma reação perante algum perigo.
• Ela é vulnerável, precisa de um defensor.
• Produz lã desde o seu nascimento.
• Sua pele produz pergaminho, material usado para escrita.
• Come o dia inteiro.
• Não sabe separar a sua comida, não diferencia a boa da ruim.
• Só come da sua manjedoura, não de outras. É respeitosa.
• Só come comida específica e só bebe água limpa.
• Conhecem a voz e o cheiro do seu pastor.
• No dia da sua morte não come, como se soubesse que vai morrer.
• Só dorme no mesmo lugar.
• É tímida e medrosa com situações adversas e turbulentas.
• Tem medo de águas correntes ou cachoeiras, mesmo que ela esteja com sede, ela não bebe, por causa do barulho que as deixam atordoadas.
     * Algumas pessoas tem sede de amar ou ser amada, de se entregar, amar a Deus, mas tem medo porque isso é demais para elas, pelo fato de não terem o costume dessas experiências reais. Elas morrem de sede, como a ovelha, mas não tem coragem de se saciar.
• Sua cabeça é molhada com óleo, para evitar as moscas ao redor da sua cabeça, pois são capazes de ficarem perturbadas ou contrair infecções com picadas.
• A noite podem (brincar de) dar cabeçadas umas nas outras pois não conseguem dormir por estarem de barriga cheia, chegando a cair e ficar de barriga pra cima e acabar morrendo asfixiada. Logo, o pastor sempre tem que ficar de olho.
• Não enxergam mais do que 10 metros, ou seja, elas nasceram para serem guiadas.

Exegese: Interpretação
     O Salmo 23 está dividido em duas partes:

     Primeira parte, do 1 ao 4, o pastor e a ovelha.
• O Salmo fala sobre uma jornada. Desde o amanhecer ao anoitecer. Da saída do aprisco as ovelhas são levadas às suas necessidades, depois passam por algum eventual vale, se alimentam (levando em consideração que a ovelha passa o dia se alimentando), depois voltam a noite em segurança ao aprisco conduzidas pelo bom pastor.
• O Salmo fala e enfatiza sobre (1) os cuidados e proteção do pastor em relação as ovelhas e (2) sobre a necessidade e dependência que elas têm dele. O Salmo diz mais sobre o pastor do que as ovelhas.
Levando em consideração que Davi era um pastor, ele sabia muito bem do que estava falando e relatando.

     Segunda parte, do 5 ao 6, o anfitrião e o convidado.
• Nessa parte, o salmo enfatiza um homem que é bem recebido pelo dono da casa. Seu inimigos estão perseguindo-o, lhe causando insultos ou lhe afligindo. O anfitrião o aceita e o recebe. E mais uma vez é ressaltado a questão da proteção e cuidado. Agora em relação ao anfitrião e o convidado. Os inimigos não tem mais nenhum tipo de poder sobre ele. Pois agora está seguro.

Hermenêutica: Aplicação Prática

• O Salmo fala sobre a provisão de Deus, Ele supre o essencial para nossas vidas.
     Versos 1 e 2, provisão para o corpo.
     Verso 3, provisão para a alma.
     Verso 6, provisão para o espírito.

• O Salmo fala sobre a presença de Deus.
     Verso 3 Ele nos garante Sua companhia durante toda a jornada.
     Verso 4 Ele nos garante Sua companhia em meio a qualquer situação.

• O Salmo fala sobre comunhão com Deus. De que somos dependentes dEle pra viver.
      Verso 6, a manifestação do Seu amor nos faz sermos gratos desejando assim estar sempre em sua presença.

• O SENHOR (YHWH, tetagrama) é o meu pastor.

• Desde os tempos de Davi não havia apenas uma pessoa pastoreando as ovelhas, havia de duas até três pessoas. Porque caso o pastor das ovelhas viesse a falecer, o segundo já estava lá no ponto para assumir o seu lugar.
É aqui onde está uma das belezas do salmo.
Saindo do âmbito humano, é óbvio que é descartado a possibilidade de termos outros deuses, outros líderes, outros pais, outros senhores, outros pastores, porque somente "o SENHOR é meu pastor", somente Deus é o nosso pastor.
Nós já conhecemos a sua voz, conhecemos o seu cheiro, a sua presença, não precisamos de outros, não queremos outros. Os líderes e pastores humanos podem nos faltar, eles podem nos deixar a qualquer hora, podem partir a qualquer momento, mas o Senhor jamais nos faltará, jamais nos deixará, Ele sempre estará conosco. De nada teremos falta, nunca teremos falta dEle.

É disso que a palavra também se trata, o "de nada terei falta" não fala somente da provisão divina, dos suprimentos e bênçãos celestiais, é mais do que isso, fala que não teremos falta do próprio pastor, da sua presença. Pois "ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo" (Salmos 23.4).

As ovelhas seguem o pastor e passam pelo vale da sombra da morte, sua presença e sua voz são sua segurança. Ele vai à frente, canta para acalmar as ovelhas.
O vale é uma região íngreme, baixa, como que um buraco. Um lugar muito perigoso para as ovelhas. Contudo, a segurança delas é a presença do pastor. Quando acharmos que estamos no momento mais baixo de nossas vidas, assolados pelos intempéries da vida, nossa segurança é a presença de Deus.

Eu não tenho falta de nada, ainda que eu não tenha tudo. Porque não é o tudo que vai me satisfazer, mas saber que tenho o necessário, mesmo que aos meus olhos seja pouco, para cumprir o meu propósito, que é ser como Cristo na terra.
Algumas pessoas pensam que só vão se satisfazer quando tiver aquilo que ainda não tem. Ingênuos. O prazer está em ser satisfeito com aquilo que já se tem.
A questão não é falta de tudo, o que nos falta é estarmos satisfeito em Deus, e somente Nele, o nosso pastor. Não são apenas as bênçãos de Deus que precisamos, nós precisamos do próprio Deus.

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