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Os Nossos Sofrimentos e os de Cristo; Diferenças, Representatividade e Semelhanças



BASE BÍBLICA

Isaías 53.3-4   |   Hebreus 4.15; 2.18 


Quando formos tratar sobre o nosso sofrimento e olhar para Jesus, devemos ter conforto, pois o nosso Senhor também sofreu. 


Queria destacar três coisas a respeito do nosso sofrimento com o de Cristo. 


1. NOSSOS SOFRIMENTOS NÃO SÃO NECESSARIAMENTE TODOS IGUAIS AO DE CRISTO

Jesus nunca passou por todo tipo de sofrimento específico. Por exemplo, ele nunca teve uma perna ou braço amputado; nunca sofreu Alzheimer ou alguma deficiência mental; nunca teve complicações com a visão; nunca passou pela dor da traição de um cônjuge, dentre outras coisas. 


O contrário também é verdadeiro. Nós nunca passamos por alguns sofrimentos específicos que Jesus passou. Por exemplo, ele morreu na cruz, e pelo menos, muitos de nós não. Jesus sofreu a ira de Deus, nós não. Jesus passou por uma "breve separação" do Pai pela condenação dos nossos pecados, nós não. Jesus passou por um tipo de sofrimento e dor "excruciante", uma dor que só ele passaria, nós não. 


Como podemos ver, até certo ponto, existe uma singularidade em cada lado. Nem tudo precisa ser vivido de forma específica por todos. O que nos leva ao segundo ponto. 


2. OS SOFRIMENTOS DE JESUS FORAM, ATÉ CERTO PONTO, REPRESENTATIVOS

Mais uma vez enfatizo, ele não passou por todo tipo de sofrimento específico, porém, passou por muitas dores e sofrimentos. O que no final das contas, representaram todos os nossos sofrimentos. 


O fato crucial aqui é você entender que Jesus teve a condição humana, portanto, ele sentiu a dor e o sofrimento humano. 


Vamos esclarecer mais sobre isso. Suponha que você, como ser humano, sempre tem dores de barriga, mas Jesus, como ser humano, nunca teve isso, porém, ele só teve dores de cabeça. 


Lhe pegunto: você pode julgar Jesus por ele ser indiferente à sua dor? Você pode dizer que: "Ah, Jesus não me entende", por ele nunca ter tido dores de barriga iguais a você? 


Você percebe nosso profundo equívoco Primeiro, os sofrimentos de Jesus podem não ser iguais aos nossos, mas, de fato, são dores. Segundo, tanto a dor de barriga como a dor de cabeça são dores que atingem o mesmo alvo, o corpo. Por isso que as dores de Jesus, por mais que não tenham sido exatamente iguais às nossas, são representativas — Ele sabe o que é sofrer. Ele sabe se compadecer de nós, porque sofreu e sentiu dores. Ele sabe exatamente o que você sente. Ele conhece as nossas fraquezas. 


No livro "Manso e Humilde", Dane Ortlund diz: "Jesus Cristo está mais próximo de você hoje do que ele esteve dos pecadores e sofredores com quem conversou e em quem tocou durante seu ministério terreno. Por meio de seu Espírito, o próprio coração de Cristo cerca seu povo com um abraço mais afável e apertado que qualquer abraço físico poderia ter." 


Portanto, nós variavelmente pecamos pela falta de compaixão e empatia. Pois quando alguém passa por algum sofrimento a qual não nos "identificamos", tratamos com certo tipo de indiferença ou desdém. Por outro lado, nós pecamos pelo fato de tratar as nossas dores como "única" e "exclusivamente" nossa. Ao sofrermos, nós dizemos: "Você não me entenderia. Você não passou pelo o que eu passei". Amado, a dor nunca é só sua; ela faz parte da vida de todos. 


A Bíblia nos exorta ao amor fraternal, nos conduz a "levar as carga uns dos outros" e a "chorar com os que choram" (Gálatas 6.2; Romanos 12.15), independente da dor ou sofrimento específico. A compaixão, que é o ato de "sofrer com o outro", é aplicado em todos os sentidos e não meramente em algo específico. 


Essa é uma das características do nosso Senhor: Ele é compassivo, possui compaixão: "Mas tu, Senhor, és Deus compassivo e misericordioso, muito paciente, rico em amor e em fidelidade. Volta-te para mim! Tem misericórdia de mim! Concede a tua força a teu servo e salva o filho da tua serva." (Salmos 86.15-16; 25.6; cf. Êxodo 34.6; Tiago 5.11). 


Jó quando estava sofrendo, esperava o mínimo de compaixão dos seus amigos, mas eles fizeram pouco caso: “Um homem desesperado deve receber a compaixão de seus amigos, muito embora ele tenha abandonado o temor do Todo-poderoso." (Jó 6.14, NVI). 


Na realidade, o próprio salmista havia dito que é difícil achar alguém que demonstra verdadeira compaixão: "As afrontas partiram o meu coração, e desfaleci. Esperei por piedade, mas foi em vão. Esperei por consoladores, mas não apareceu ninguém." (Salmos 69.20, NAA). 


Nos Evangelhos, Jesus é retratado como um Senhor compassivo: "Ao ver as multidões, teve compaixão delas, porque estavam aflitas e desamparadas, como ovelhas sem pastor" (Mateus 9.36; 14.14; 15.32; 20.34; Marcos 1.41; Lucas 7.13). 


E nós somos chamados a sermos compassivos uns para com os outros em nossa vida cristã: "Revestí-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de coração compassivo, de benignidade, humildade, mansidão, longanimidade, suportando-vos e perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro; assim como o Senhor vos perdoou, assim fazei vós também." (Colossenses 3.12-13; cf. Efésios 4.32; 1Pedro 3.8). 


Portanto, tendo demonstrado nas Escrituras que a compaixão é uma característica inata do Senhor e que devemos imitá-lo, agora descobrimos o que autor aos Hebreus diz sobre Jesus: "Porque não temos sumo sacerdote que não possa se compadecer das nossas fraquezas; pelo contrário, ele foi tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado. [...] Pois, naquilo que ele mesmo sofreu, quando foi tentado, é poderoso para socorrer os que são tentados." (Hebreus 4.15; 2.18). 


Por que é que eu falei no começo que Jesus não passou todo tipo de sofrimento específico e que, em certo sentido, os sofrimentos dele foram representativos? Porque temos de entender que muitos sofrimentos dos quais passamos recai sobre nós por causa do pecado. E Jesus nunca pecou. Observe que o texto diz é que Ele foi "tentado à nossa semelhança", e não que Ele "pecou" à nossa semelhança. Por isso minha afirmativa: os sofrimentos de Jesus são, por um lado, representativos. Isaías disse: "Homem de dores e que sabe o que é padecer [...] as nossas dores levou sobre si" (Isaías 53.3-4). 


E o fato de também serem representativos não significa dizer que Ele, em algum ponto, é indiferente. Não. Ele nos entende por completo, carregou todas as nossas dores. Por dois motivos:

  1. Pelo fato do Senhor ter se tornado humano e provado a dor humana;
  2. Que a dor não é apenas uma característica humana, a dor é também uma característica do amor. 


Pois, em relação ao segundo motivo, a Escritura afirma: "O amor tudo sofre" (1Coríntios 13.7). O amor é algo que pode ser custoso. John Stott disse: "Se o amor é autodoador, então inevitavelmente é vulnerável à dor, visto que se expõe a si mesmo à possibilidade de rejeição e insulto". Jürgen Moltmann também afirma: "Se Deus fosse incapaz de sofrer, então ele também seria incapaz de amar, [pois] aquele que é capaz de amar também é capaz de sofrer, porque Ele também se abre ao sofrimento que o amor acarreta". 


Se Deus não possui emoções, se as emoções são apenas coisas metafóricas [e visto que muitas de nossas emoções são atribuídas a Deus], então o Deus que adoramos e servimos possui nada mais nada menos do que uma coração de pedra ou de gelo. Mas as Escrituras afirmam: Deus é amor (1João 4.8; Romanos 5.8; João 3.16), o que implica tanto ações como emoções. O Senhor sabe o que é sentir o pesar nesses dois aspectos. 


Ao olhar pra cruz, você verá um Deus-homem que sabe o que é sofrer. Jesus entende você, ele compreende o teu sofrer, qualquer dor. Então, coloque suas dores aos pés de Deus, faça conhecidos os teus sofrimentos na presença dEle. O Senhor é compassivo. O nosso Sumo Sacerdote se compadece de nós. 


3. OS SOFRIMENTOS DE JESUS SÃO, EM ALGUNS CASOS, IGUAIS E TAMBÉM SEMELHANTES

Aqui quero destacar esses dois pontos. (1) Existem alguns de nossos sofrimentos que são iguais aos de Jesus e (2) aqueles que são semelhantes aos dEle. 


Primeiro, podemos nos identificar com os sofrimento de Jesus. Somos mais parecidos do que imaginamos. Em muitos casos, passamos pelas mesmas coisas. A começar por:

  • TENTAÇÕES: Semelhante a nós, Ele em tudo foi tentado — mas sem pecado.
  • TRAIÇÃO: Ele foi traído e abandonado pelos seus amigos na sua hora mais importante.
  • PERDAS: Ele sentiu a dor da perda de amigo.
  • ALMA ABATIDA: Ele Provou do sentimento angustiante da morte ao qual enfrentaria na cruz. 


Segundo, podemos nos confortar com os sofrimentos semelhantes ao de Jesus. Não necessariamente tivemos a mesma experiência literal como Jesus, mas passamos por coisas semelhantes. Como por exemplo, houve uma mulher chamada Joni Eareckson, uma jovem atlética. Sofreu um terrível acidente a qual deixou quadriplégica. Ela conta sua história com honestidade, diz também que passou pelos sentimentos de amargura, ira, rebeldia e desespero. Com ajuda de familiares e amigos, ela conseguiu se reestruturar e confiar na soberania de Deus. Adquiriu uma nova vida fazendo pinturas com a boca. Uma de suas amigas, chamada Cindy, lhe falou sobre Jesus e como os sofrimentos dele e dela eram semelhantes. Mas em que aspecto? Sua amiga disse: "Ora, Jesus também ficou paralisado [na cruz]". Nunca lhe havia ocorrido antes na sua mente que Jesus sofreu uma dor semelhante a dela, ficando incapaz de mover. Isso para ela foi confortador, pois o seu Senhor sabia como ela se sentia. 


Na cruz entendemos que Jesus passou uma dor que nenhum outro jamais passou, e que Ele demonstra entender todos os nossos sofrimentos, pois Ele mesmo sofreu. 


Todos os nossos pecados foram punidos ali: "O castigo que nos traz a paz estava sobre ele". Todo o nosso sofrer foi aliviado ali: "E pelas suas feridas fomos sarados" (Isaías 53.5). 


O Deus que nos permite sofrer, ele próprio uma vez sofreu em Cristo Jesus, e continua a sofrer conosco e para nós hoje.

John Stott

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