BASE BÍBLICA
Marcos 8.34-35 | 2Timóteo 2.11-13
Deus é um Ser imutável.
• Ele age conforme Ele é:
"Não é por causa de vocês que faço isto, ó casa de Israel, mas pelo meu santo nome" (Ezequiel 36.22).
• Ele age conforme o que Ele fala:
"E porei em vós o meu Espírito, e vivereis, e vos porei na vossa terra; e sabereis que eu, o Senhor, o falei e o cumpri, diz o Senhor" (Ezequiel 37.14)
Apesar de Deus agir retribuindo as nossas obras (Salmos 62.12), tudo o que Ele faz é com base no Seu nome, de onde provém a Sua fidelidade, graça, justiça bondade, amor e misericórdia. Por isso nós não somos consumidos (Lamentações 3.22-23; Êxodo 34.6; Jeremias 14.7), porque Ele age por amor ao "nome" dEle. E "nome" está intimamente ligado ao caráter, a quem Deus é. Jesus revelou quem Deus realmente é: "Manifestei o teu nome àqueles que me deste do mundo" (João 17.6).
Portanto, se Deus age conforme o Seu santo nome, Ele está preocupado mais com a Sua coerência do que com Sua reputação. Algumas vezes, em alguns textos, a reputação está ao lado da coerência, como por exemplo, em Êxodo 32.1-14, temos o contexto das tábuas da lei e do bezerro de ouro, mas a ênfase recai sobre a coerência (v.13-14). Moisés subiu ao monte e demorou, o povo criou um bezerro de ouro. Deus quis destruir o povo e recomeçar com Moisés. Mas Moisés argumentou sobre a reputação de Deus entre os egípcios, e logo em seguida pediu para Deus se lembrar de Sua aliança que fizera com Abraão, Isaque e Israel. Uma aliança a qual Ele jurou por Si mesmo. E assim a reputação e a coerência estavam ligadas.
Mas em outras ocasiões, a coerência fica acima da reputação. Como por exemplo:
1 • Deus abençoava o povo em um momento pela obediência, e em outro, castigava-os pela desobediência deles; e o principal, Deus não poupou Seu próprio Filho, Ele o puniu, quando tomou o nosso lugar na cruz. Tudo para manter a coerência com o Seu caráter de justiça e santidade (cf. Romanos 3.23ss). Mesmo que as pessoas achassem e rotulassem Ele de iracundo ou enraivecido — como é notável entre os seres humanos, muitos não gostam da ideia de um Deus irado por causa do pecado.
2 • Deus irá lançar muitos no inferno para satisfazer a Sua justiça, para que isso seja coerente com o Seu caráter. Por mais que as pessoas taxem Ele de ser um Deus mal, vingador ou malévolo — como podemos ver hoje na sociedade, muitos não aceitam essa ideia de inferno ou tormento eterno.
3 • Deus usou a cruz, uma penalidade de morte romana que manchava a vida e a reputação de uma pessoa, para usá-la como instrumento de sabedoria e salvação, pois "o Cristo crucificado" é "escândalo para os judeus, loucura para os gentios [...] a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, ela é poder de Deus" (1Coríntios 1.18, 23). Por isso que na igreja primitiva, para muitos era loucura e escândalo aceitar a mensagem da cruz. Como alguém poderia aceitar que uma pessoa que morreu de uma forma humilhante fosse seu Senhor e Salvador? Porque alguém seguiria uma pessoa que morreu de forma vergonhosa, na cruz? É aqui que percebemos que Deus atentou para a Sua coerência, e não para a mera reputação. Ele se mantém com o caráter intacto, Seu santo nome continua santo. Esse é um dos motivos pelos quais Jesus criticou os fariseus, pois zelavam pela reputação mais do que a coerência.
Não existe nada em Deus que Ele deva negar de Si mesmo. Ele é Fiel, Santo, Misericordioso, Bondoso, Paciente, Amoroso, Justo. Deus é imutável (Tiago 1.17; 2Timóteo 2.13; Malaquias 3.6; Hebreus 6.17; 13.8).
Logo, com base na imutabilidade de Deus, que Ele é o que realmente é, que possui atributos perfeitos, que não pode negar a Si mesmo, agora, olhando para nós, somos ordenados a negar a nós mesmos.
Mas isso resulta em que? Porque somos ordenados a chamados a isso?
• Somos ordenados a negar a nós mesmos para morrer para nós e começar a viver nossa vida para Deus:
"Pois o amor de Cristo nos constrange, porque julgamos assim: se um morreu por todos, logo todos morreram; e ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou" (2Coríntios 5.14-15).
• Somos ordenados a negar a nós mesmos para morrer para nós e viver para servir ao próximo:
"Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Mas não useis da liberdade para dar ocasião à carne, antes pelo amor servi-vos uns aos outros. Pois toda a lei se cumpre numa só palavra, a saber: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo" (Gálatas 5.13-14).
Somos ordenados a exercer essa negação porque existe em nós uma natureza embaraçada. Existe uma parte que Deus ama e uma parte que Deus odeia. A parte boa, que é a Sua criação (Gênesis 1), é a que Ele ama; a parte ruim, que é a que nos tornamos em Adão (Gênesis 3), é a que Ele odeia. Ou seja, nós possuímos em nós mesmos tanto a "imagem e semelhança de Deus" como também a imagem do pecado por causa da Queda de Adão. E Adão não é apenas o nosso representante, mas como também somos inclinados a imitá-lo em sua desobediência. Isto é, somos pecadores de forma representativa e de forma ativa.
O homem não foi feito à imagem de um “eu”, mas à imagem de um “nós”; “Disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gênesis 1.26). O nascimento do “eu” surge em Gênesis 3, na escolha do ser humano de tomar atitudes colocando de lado a orientação e mandamento de Deus. O “eu” nos dá essa herança, de rebeldia para com Deus.
O apóstolo Paulo diz a Timóteo que surgiriam dias trabalhosos, em que o pecado tomaria grandes proporções, e o primeiro pecado da lista de Paulo era o egoísmo (2Timóteo 3.2). Ou seja, cada vez mais as pessoas seriam centradas em si mesmas e hostis para com Deus.
Se apenas um “eu” faz estragos, que dirá de vários “eus” juntos. Temos uma demonstração dessa conjunção egoísta na história da Torre de Babel. A história e construção dessa torre foi uma decisão de vários “eus”. Perceba: é apenas um eco do Jardim, deixaram as ordenanças de Deus de lado e seguiram os seus próprios intentos. Por isso que ao rejeitarmos o chamado de Jesus para negar a nós mesmos só demonstra que estamos empenhados em manter essa natureza egoísta e hostil dentro de nós.
Observe também que o “eu” tem uma inteligência tola, quando faz coisas corretas elogia a si mesmo (Lucas 18.10-12), mas quando faz algo de errado, diz que a culpa é do outro ou até mesmo culpa a Deus (Gênesis 3.10-13). O gênio chamado “eu” é amante de si mesmo, por isso Paulo dirá que pessoas dominadas pelo egoísmo são mais "amigos dos prazeres do que amigos de Deus" (2Timóteo 3.4). Se algo não lhe satisfaz, se algo não sai do modo como queria, então tudo está errado. As coisas boas são de sua autoria, mas as ruins não são. Completa incoerência!
É por isso que somos incoerentes. Nós somos inconstantes como as ondas do mar (Tiago 1.6-8). Coxeamos entre dois pensamentos (1Reis 18.21) — nao somos tão diferente deles, até mesmo Elias teve sua instabilidade. Dentro de nós há uma luta de duas naturezas. E nessa luta não somos meros expectadores, geralmente estamos ao lado do pecado, pois quando ele toma grande proporções em nossas vidas, somos inclinados em favor de nós mesmos (Romanos 7.20; 8.5). É Adão e Cristo vivendo em nós; é a carne e o Espírito militando em nosso ser (Gálatas 5.17).
Deus ao criar e formar o homem do pó da terra viu que "tudo havia ficado muito bom" (Gênesis 1.31); mas logo depois essa mesma criação — o ser humano — passou a produzir maldade constantemente (Gênesis 6.3-5).
O próprio apóstolo Paulo, em sua carta aos Romanos, disse que não entendia o que fazia (7.15), que não havia nada de bom nele (7.18), que no íntimo do seu ser tinha prazer na Lei de Deus, mas na carne era o pecado que atuava (7.22-23). Ao mesmo tempo disse que "tudo o que Deus criou é bom" (1Timóteo 4.4).
Mais uma vez ressaltamos, somos inconstantes. Enquanto vivermos neste mundo, sempre haverá essa dualidade em nós.
A prova disso é que algumas vezes nós tecemos esses comentários sobre os outros: "Você não era assim", "nunca esperei isso de você", "você está diferente; mudou bastante", "eu esperava algo melhor de você". Pobres e miseráveis humanos que somos, com uma fé vacilante e inclinados ao pecado somos inconstantes e indecisos em tudo o que fazemos (Tiago 1.8).
Portanto, sabendo dessa nossa natureza embaraçada, somos ordenados a negar a nós mesmos. O "negue-se a si mesmo" é negar essa imagem inconstante e caída que há em nós. Por isso Jesus disse que se "perdermos" a nossa vida (a nossa imagem caída), ganharemos a verdadeira vida que está em Cristo Jesus.
Tudo o que devemos negar em nós mesmos não é a imagem de Deus criada e colocada em nós, mas sim tudo aquilo que não for compatível com Jesus, tudo aquilo que não for semelhante a Deus.
Quando estamos negando a nós mesmos, não estamos negando quem realmente somos, diminuindo ou menosprezando a nossa existência, pelo contrário, estamos indo em busca daquilo que realmente deveríamos ser. Não, não estamos nos rebaixando, não estamos nos desprezando, estamos valorizando aquilo que Deus criou, isto é, a Sua imagem e semelhança. Jesus não veio para destruir a nossa verdadeira imagem, Ele veio para redimi-la. Já a imagem distorcida na Queda, Ele não veio redimi-la, mas para destruí-la.
John Stott disse: "O meu ser verdadeiro é aquilo que sou mediante a Criação, o que Cristo veio a fim de redimir, pelo seu chamado. O meu ser falso é aquilo que sou mediante a Queda, o que Cristo veio a fim de destruir."
Então, quando nós olhamos para a sociedade e as pessoas nos dizem: "Você deve se cuidar. Se valorizar. Amar a si mesmo", o que elas estão querendo dizer? Se amar? Se valorizar? Se autodescobrir? Bom, você há de convir comigo que, geralmente quando as pessoas dizem isso, elas estão valorizando e amando a sua imagem caída.
Algumas pessoas dizem: "Eu me sinto bem, não tenho medo de ser quem realmente eu sou. Não me importarei com a opinião da sociedade". Mas a realidade que vemos é um homem se relacionando com outro homem, uma mulher com outra mulher, trocam a verdade de Deus pela mentira (Romanos 1.24-27). "Eu me valorizo e me amo", dizem outras. Mas vemos essas mesmas pessoas servindo a si mesmas, realizando seus próprios desejos egoístas, sendo mais amantes de si mesmas, idolatrando o seu próprio "eu" ao invés de se doarem pelas outras (2Timóteo 3.1ss). É isso o que acontece quando as pessoas "se cuidam", "se amam" e "se valorizam" na sociedade moderna, todas vão em busca de seus próprios interesses, todas idolatram a imagem caída que há dentro de nós.
Ao olharmos para Jesus, podemos perceber que Ele tanto ressaltou o nosso valor diante de Deus, a nossa Criação, como criticou o que nos tornamos por causa da Queda.
• Ele ressaltou e valorizou a nossa Criação. Ele nos fez lembrar que somos valiosos.
"Será que vocês não valem muito mais do que as aves? [...] Ora, quanto mais vale um homem do que uma ovelha" (Mateus 6.26; 12.12).
• Ele chamou a atenção e criticou quem nos tornamos na Queda de Adão. Ele nos fez lembrar de como está o nosso coração corrupto.
"Porque de dentro, do coração das pessoas, é que procedem [todos os pecados]" (Marcos 7.20-23).
É por isso que Jesus nos ordenou a negar a nós mesmos, essa imagem caída, como se dissesse: "Eu vim para que vocês enxergassem o real valor de vocês, mas há algo em seus corações que está impedindo disso acontecer. Eu quero que vocês peguem essas paixões sórdidas e infames que existem em seus corações e matem elas, e diariamente. Neguem-se a si mesmos, tomem sua cruz, sigam-me. Vou levá-los a um lugar em que irão entender de fato o seu real valor. E lhes mostrar um plano glorioso que o Pai tem reservado pra vocês."
Meu amigo(a), quanto você vale para Deus? Você vale muito, pois foi criado à imagem e semelhança dEle, és a coroa da criação (Gênesis 1.27). Podemos aprofundar ainda mais a resposta para essa pergunta. Quanto você vale para Deus? Você vale o Cristo crucificado (Romanos 8.32; 1Pedro 1.17-21).
Irei resumir o negar-se a si mesmo em dois pontos:
• Primeiro, o caminho para encontrarmos quem realmente somos, é o caminho da cruz. É lá que nos encontramos. É lá que encontramos a confusão que nós causamos — isto é, a imagem caída de Adão em nós e Deus revelando a Sua justiça e santidade —, mas também é lá que encontramos o valor que temos para Deus — isto é, a Sua imagem e semelhança em nós e Deus revelando o Seu amor e Sua misericórdia. As pessoas estão tentando "encontrar a si mesmas" pelo viés cultural, ideológico e intelectual. Tudo o que essa sociedade enferma pelo pecado irá conseguir nessa jornada é idolatrar a sua imagem caída. É na cruz que verdadeiramente nos encontramos.
• Segundo, apesar de termos um grande valor para Deus pelo fato de sermos a Sua criação, é na cruz que nos é revelado um plano bondoso do Pai: pela fé somos feitos uma nova criação em Cristo Jesus, mais sublime e gloriosa. Por um lado, todos os seres humanos, incluindo os salvos e os perdidos, são criaturas de Deus, eles expressam a glória de Deus por serem a Sua criação; por outro lado, todos os cristãos, somente os filhos de Deus, expressam uma glória maior, através da graça do Senhor, pois eles são uma nova criação, gerados em Cristo Jesus.
Por isso o apóstolo Paulo vai dizer que: Nele, em Jesus, fomos feitos nova criatura (Efésios 2.10; 4.22-24; 2Coríntios 5.17; Colossenses 3.9-11; Gálatas 6.15; Tiago 1.18; Romanos 8.30). Logo, fomos feitos e criados por Deus duas vezes: na primeira, pela Sua vontade; na segunda, pela Sua graça.
E qual o propósito do negar a si mesma e obter essa nova Criação?
1 • Para expressar a glória de Deus. Para que a imagem dEle seja visivelmente clara para as pessoas, em todas as áreas de nossas vidas.
2 • Para que possamos possuir, num futuro bem próximo, uma única natureza semelhante ao Criador, santa, justa e gloriosa, que será capaz de se relacionar com o nosso Deus por toda eternidade.
Primeiro, para expressar a glória de Deus em todas as áreas de nossas vidas:
• No lar e no casamento (Efésios 5.22-32).
• Na unidade da Igreja (João 17.20-23).
• No mundo (Mateus 5.13-16).
Segundo, para ter uma natureza gloriosa e perfeita capaz de se relacionar com Deus pela eternidade:
• Neste mundo (Efésios 4.11-16; Tito 2.11-14).
• Na eternidade (1João 3.1-3; Filipenses 3.20-21).
Antes da cruz, somos criaturas de Deus e seres caídos; depois da cruz, somos nova criação e seres redimidos. Somente aquele que decidir negar a si mesmo, caminhar para a cruz e perder a sua vida — essa vida caída e manchada pelo pecado de Adão — é que encontrará e receberá essa vida gloriosa, que é a nova criação, que provém da graça de Deus, que se transforma de glória em glória, se desenvolvendo para chegar à estatura de varão perfeito e ser para sempre de forma plena semelhante ao nosso Deus e Senhor Jesus Cristo. Amém.
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